12 de Março de 2018

Que a tecnologia está cada vez mais presente em nosso dia a dia, isso não se discute. Entretanto, como diz o velho clichê, a diferença entre o remédio e o veneno está na dose, e o reflexo do uso excessivo já começa a aparecer em crianças e adolescentes, que estão em contato com os aparelhos cada vez mais cedo, contrariando, inclusive, a recomendação pediátrica mundial que orienta que antes dos dois anos as crianças não tenham acesso às mídias digitais.

“Tenho atendido muitos casos de atraso na fala e dificuldade de interação com crianças menores de dois anos, e quando verificamos, na rotina há exposição excessiva às tecnologias”, cita a neuropediatra Áurea Christina.

Além de alterações comportamentais e emocionais, o excesso de exposição a esses aparelhos pode acarretar prejuízos neurológicos, chegando, inclusive, ao acometimento de crises convulsivas. “No meu consultório, chegam mais os casos de crises convulsivas, muitas vezes relacionadas ao uso excessivo da tecnologia e à privação do sono”, alerta a médica. Do ponto de vista psicológico, as consequências também afetam a saúde das crianças e adolescentes.

“As consequências observadas já são nítidas e diversas, como problemas posturais, deficiência de sono, queda no rendimento escolar, alteração no processo de atenção e concentração e hábitos cada vez mais sedentários. Além disso, a ansiedade tem aflorado com mais intensidade, aumento das frustrações e angústias, por muitas vezes querer um padrão de vida, de corpo e de felicidade que é divulgado nas redes sociais, mas que não corresponde à realidade”, pontua a psicóloga Géssica Rodrigues.

Para a psicopedagoga Vilma Morais, responsável pelo Núcleo de Apoio Interdisciplinar da Escola Mater Christi, existem características que podem servir de alerta para os pais que o filho está usando a tecnologia de modo inadequado. “Ansiedade, falta de concentração, impulsividade e desinteresse são comportamentos presentes na maioria dos casos que temos acompanhado. Outras características que podem indicar esse excesso é um quadro de isolamento social e depressão”, lista.

O alerta recai para os pais que, com o ritmo de vida cada vez mais acelerado e o número de compromissos cada vez maior, se veem diante de um desafio na hora de lidar com o controle do tempo de exposição das crianças e adolescentes a esses aparelhos. O assunto gera tanta preocupação entre a comunidade familiar que foi alvo de palestra promovida por uma escola privada em Mossoró.

“O que motivou a escola a promover essa discussão foi exatamente a percepção dessa necessidade dos pais e também a alteração do comportamento de algumas crianças e adolescentes no ambiente escolar devido ao uso excessivo da tecnologia. Quisemos trazer a opinião de profissionais sobre o assunto e que mostram que o excesso de tecnologia tem malefícios. Mas quando a escola está atenta, isso pode ser contornado junto às famílias”, ressalta a supervisora de ensino do Colégio Mater Christi, Cecília Paiva.

No encontro, pais e especialistas discutiram os caminhos para promover os ajustes no uso indiscriminado da tecnologia e como identificar os reflexos que já são evidentes nas crianças e adolescentes. “A importância de discutir isso com os pais, primeiro, foi a de promover uma reflexão sobre o uso que nós estamos fazendo, como é que a gente cobra limite se nós não impomos limites. Esse é um desafio. É o preço que eu tenho que pagar como pai e como mãe, como familiar, ao permitir que uma criança ou um jovem tenha, desde muito cedo, acesso à internet”, avalia a jornalista Izaíra Thalita.

Na opinião da especialista em mídias digitais, não há como retroceder no uso da tecnologia, mas o exemplo em casa é a melhor ferramenta para o equilíbrio. “Que tipo de hábito eu estou promovendo quanto ao uso da internet na minha casa? junto à minha família? Porque várias pesquisas vão demonstrar que as crianças se relacionam com a tecnologia não a partir das telas, mas a partir daquilo que elas enxergam ou daquilo que elas veem, ou seja, a partir do exemplo”, avalia Izaíra.

 

Pais em busca do equilíbrio

 

Mãe de Arthur, de 9 anos, e Guilherme, de 7, a enfermeira Aline Nobre comenta que a grande dificuldade é a organização do tempo na rotina familiar cada vez mais cheia de compromissos. “Aqui em casa, a gente tenta fazer a limitação de tempo de uso de celular e videogame. Mas, a maior dificuldade é em relação ao nosso estilo de vida, que é muito corrido e onde acumulamos diversas funções. Além disso, nós pais precisamos nos policiar para dar o exemplo”, desabafa.

Controlar a qualidade do conteúdo que é consumido pelos filhos é outro aspecto pontuado pelos pais. É o caso da servidora pública Daniele Melo, mãe de dois meninos – um de 10 anos e outro de 6. “A maior dificuldade que tenho é de fazer um controle da qualidade do que eles assistem ou vivenciam na internet, seja nas redes sociais, nos jogos virtuais ou até mesmo na relação ao que é dito e propagado pelos youtubers que eles seguem”, relata. Entretanto, ela admite que em casa os limites de uso ainda estão sendo definidos e que a tecnologia tem atrapalhado a rotina familiar.

“Ainda estamos tentando normatizar a duração ideal do tempo dispensado diante das telas.” Ela também assume que usa muito o celular. “Tudo que é possível resolver via aplicativos, estou dentro. Uso em função do trabalho e para aprendizagem, mas também despretensiosamente”, confessa a servidora pública.

O exemplo dos pais, que também estão aprendendo a lidar com essa disponibilidade de tecnologia, ainda é o maior aliado na busca pelo equilíbrio. Afinal, mais raro do que ver famílias sentar frequentemente à mesa para fazer uma refeição juntos é presenciar esse fato sem que alguém não esteja com o celular em mãos, e essa falta de interação entre a família traz efeitos psicológicos e emocionais. Quem faz o alerta é a psicóloga Géssica Rodrigues, uma das palestrantes do evento e integrante da equipe do Núcleo de Atendimento Interdisciplinar no Colégio Mater Christi, em Mossoró.

“É comum presenciarmos adolescentes que se recusam a sair por um tempo prolongado por falta de internet; ou crianças que não sabem brincar, com transtornos de sono e alimentar, além do isolamento. Como alternativa, propomos que a família tenha um momento de interação para jogar um jogo de tabuleiro, praticar algum esporte ou mesmo conversar, mas sem o uso de tecnologia”, destaca.

 

Rapha

@maehiperativa

por Rapha Dorvillé

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