14 de Março de 2018

A alimentação dos pequenos tem sido, cada vez mais, uma prioridade das mães e dos pais hoje em dia. Para nos ajudar a entender um pouco mais desse tema que tem sido uma prioridade em muitos lares, a nutricionista Márcia Menegassi, esclarece algumas dúvidas.

Sobre essa tendência de pais mais preocupados com a alimentação ofertada aos filhos, a nutricionista Márcia Menegassi frisa que uma alimentação adequada até os dois anos de idade é fundamental para promover o crescimento e o desenvolvimento apropriados da criança.

A especialista lembra que até os seis meses de vida, o leite materno deve ser a única fonte alimentar, pois sozinho é capaz de nutrir adequadamente, além de favorecer a proteção contra doenças. Porém, a partir do sexto mês, a complementação do leite materno é necessária para elevar a densidade energética da dieta e aumentar o aporte de micronutrientes, como ferro e zinco, por exemplo.

“Essa fase da introdução dos alimentos na dieta da criança, chamada de alimentação complementar, é considerada uma etapa crítica, pois pode conduzir ao déficit nutricional e a enfermidades, se não forem adotados alguns cuidados. É a fase em que ocorre o aparecimento de movimentos voluntários e independentes da língua, fazendo que o alimento role na boca e a criança o mastigue. Além disso, é a fase em que há uma intensa curiosidade da criança em explorar o meio ambiente”, esclarece.

A nutricionista lembra que os pais aprenderem sobre os cuidados nessa fase da criança será fundamental para a formação de hábitos alimentares saudáveis até a vida adulta e o acesso à informação propicia aos pais o direito de aprender/escolher e de se conscientizar sobre a importância da alimentação complementar.

Para Márcia Menegassi, do ponto de vista comportamental, desde o nascimento os recém-nascidos saudáveis possuem a capacidade de autorregular sua alimentação, ou seja, regular a fome e a saciedade. Nessa fase, o ritmo da criança deve ser respeitado, de acordo com seu desenvolvimento neuropsicomotor. Para isso, a evolução da consistência deve ser gradual, inicialmente na forma de papas (porém, jamais peneirar ou liquidificar) e todos os grupos alimentares devem ser oferecidos a partir da primeira “papa principal”, como explica a nutricionista.

De acordo com a profissional, quanto ao paladar, existem quatro sabores, e eles são inatos: doce, salgado, amargo e ácido. Pesquisas demonstram que bebês têm preferência pelo doce. Outra característica fisiológica da criança é a rejeição para alimentos novos, também chamada de reação neofóbica aos alimentos. Sabe-se que poucas preferências alimentares são inatas, a maioria é aprendida pelas experiências obtidas com a comida e a ingestão e envolve uma condição associativa com o aspecto de ambiência alimentar infantil, especialmente no contexto social.

“Fica claro então que, parte da formação do paladar vem do aprendizado, em que os pais têm um papel fundamental. A aprendizagem é fator importante na aceitação dos novos alimentos e está cientificamente provado que existe relação direta entre a frequência das exposições e a preferência pelo alimento. São necessárias de 5 a 10 exposições a um novo alimento para se ver um aumento na preferência por ele. Além disso, a rejeição inicial ao alimento, muitas vezes, é erroneamente interpretada como uma aversão permanente a ele, e este acaba sendo excluído da dieta da criança”, diz.

Márcia Menegassi é pós-graduada em Nutrição Clinica, pós-graduada em Ciência e Tecnologia de Alimentos (UFRGS/RS), mestre em Ciências Medicas pela Faculdade de Medicina (UFRGS/RS) e especialista em Terapia Nutricional Parenteral e Enteral (BRASPEN/SBNPE)

 

PRINCIPAIS ERROS

Márcia Menegassi ainda alerta sobre os principais erros cometidos pelos pais ou responsáveis em relação à alimentação dos pequenos. Para ela, até 1 ano de idade, o consumo precoce de alimentos complementares é o principal erro. E explica que antes dos 4 meses a criança não tem condições motoras de realizar o ato da deglutição. Além disso, a alimentação precoce pode trazer consequências danosas para a saúde da criança, como aumento do risco para as doenças infecciosas, particularmente as diarreias, e aumento de risco para obesidade e doenças cardiovasculares na idade adulta.

“O descuido com as práticas comportamentais, posturais e ambientais, como o uso indevido de peneiras e/ou liquidificadores, a falta da cadeirinha própria para a alimentação e o uso de distrações durante as refeições (televisão, celular, brinquedos etc.), a pouca variedade no cardápio, propiciando a monotonia e a ingestão inadequada de calorias e micronutrientes, assim como não permitir que a criança se suje e interaja durante as refeições, são também erros comuns de acontecerem”, complementa.

Outro erro é o uso de alimentos ultraprocessados (sucos artificiais, biscoito recheados, bolos, chocolates, iogurtes tipo petit suisse, os embutidos como salsicha e refrigerantes. E, por fim, o uso de sal antes de 1 ano de idade e açúcar antes de 2 anos de idade.

Muitos pais optam por produtos industrializados, por considerar mais prático ou por acreditar que oferecer uma dieta de maior qualidade teria um custo mais elevado. No entanto, Márcia Menegassi enfatiza que os alimentos que compõem a alimentação complementar são os alimentos caseiros da época, utilizados pela família. As frutas e os alimentos utilizados para fazer a papa principal como os cereais ou tubérculos (arroz, batata, mandioca, cará, inhame, milho, farinhas, batata-doce), as carnes e ovos (carne vermelha, frango, peixe, fígado), as leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico, ervilha seca), as verduras de folha (chicória, alface, couve, espinafre) e legumes (cenoura, abóbora, abobrinha, beterraba, jerimum) são facilmente encontrados. “Então, para encontrar os alimentos in natura, não há dificuldades. A dificuldade pode estar no preparo, que exige tempo e medidas rigorosas de higiene no preparo, na qualidade dos alimentos e água, na conservação e na saúde do manipulador”, lembra.

 

ALIMENTOS PROIBIDOS

Sobre os alimentos que as crianças não deveriam comer nem como exceção, a nutricionista orienta que na introdução alimentar, deve-se evitar a substituição das frutas por sucos. Atualmente, recomenda-se evitar essa prática, especialmente como estratégia de prevenção à obesidade. Os alimentos que a criança – principalmente até os 2 anos de idade – não deve consumir são os ultraprocessados (sucos artificiais, biscoitos recheados, bolos, chocolates, iogurtes tipo petit suisse, embutidos como salsicha e refrigerantes). Por fim, jamais se deve oferecer o leite de vaca sem estar adaptado para o bebê.

Algumas pessoas têm o hábito de oferecer alimentos para crianças pequenas, inclusive bebês, sem a autorização dos pais. A especialista fala que essa prática, além de desrespeitar os pais, pode representar riscos inclusive para a saúde da criança. “Fundamentalmente, deve-se ter respeito pelos pais das crianças. Você não sabe se os pais têm algum tipo de restrição alimentar, seja por ideologia, religião ou qualquer outra razão, como no caso de uma criança com alguma alergia alimentar grave ou uma criança diabética, por exemplo. Outro fator importante é o risco de engasgo com pirulitos, balas etc.”

 

ALIMENTAÇÃO NA ESCOLA

Para encerrar, Márcia Menegassi lembrou que a escola pode ser considerada também um importante ambiente para se desenvolver estratégias de promoção da saúde. Acreditando nisso, em 2013, o Senado decidiu que as cantinas instaladas nas escolas de ensino básico serão proibidas de vender bebidas com baixo teor nutricional ou alimentos com quantidades elevadas de açúcar, de gordura saturada, de gordura trans ou sódio, porém ainda depende da aprovação dos deputados e do Palácio do Planalto para valer como lei. Mesmo assim, em alguns estados, a restrição de venda de determinados produtos alimentícios considerados não saudáveis já vem sendo adotada, devido à preocupação com o crescente avanço da obesidade infantil e das doenças crônicas não transmissíveis. “Por fim, com o objetivo de fazer que os alunos comam melhor na hora do recreio, o Ministério da Saúde elaborou o Manual das Cantinas Escolares, em que os donos das cantinas recebem orientações para oferecer um cardápio mais saudável, com mais frutas, sucos naturais e alimentos com menos sódio e gordura.”

 

 

>Referências apontadas pela especialista.

(http://www.cantinasaudavel.com.br/inicio.aspx)

Fonte:

Nutrologia Pediátrica – Prática Baseada em Evidências. Carlos Alberto Nogueira de Almeida,

Elza Daniel de Mello (2015).

A Alimentação Complementar e o BLW (Baby -Led Weaningg). Guia Prático de Atualização.

Departamento de Nutrologia. SBP (2017)

Práticas de alimentação complementar no primeiro ano de vida e fatores associados. L.P.M.

Silva et al. Rev. Nutr., Campinas, 23(6):983-992, nov./dez., 2010.

 

Nara

@maehiperativa

por Rapha Dorvillé

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